Sobre duchas de água fria e expectativas frustradas

Quero falar com 215 candidatos que se encontravam neste exame oral da magistratura que foi suspenso pelo CNJ. Quero falar com 215, embora 216 estivessem na prova oral.

Um candidato não aprovado acabou por protocolizar reclamação junto ao CNJ argumentando que a entrevista secreta e pessoal não poderia ser realizada visto que ausente do edital ou da Resolução 75 do CNJ.

Impressiona ainda ver o ódio disseminado nas redes sociais em que pessoas afirmam ser clientelismo o que acontece nesta prova. Os valentes anônimos criticam o TJSP por este tipo de prova.

Pois bem, vou revelar qual foi o conteúdo da minha entrevista reservada, embora isso não seja relevante.

Fizeram-me duas perguntas: 1) Onde sua mãe está enterrada? (ela havia falecido tinha 4 meses); 2) O que é FAPESP? (eu tinha colocado no meu currículo que fui bolsista da fundação).

Qual o problema com estas questões?

Muitos de meus amigos, aprovados ou nao, tiveram questões similares.
Podemos questionar sim a realização deste tipo de prova, mas o fato é que a Resolucao 75 do CNJ a permite como forma de complemento da investigação social.
O que me preocupa, contudo, é ver a guerra de comentarios e informações na net sobre este tema.

Preocupa-me pois são futuros servidores públicos, juízes ou não, que demonstram não estar preparados para lidar com a frustração. Ora, se agem assim na valentia do anonimato, tenho medo de imaginar o que fariam no caso de possuir algum poder imaginário decorrente do cargo que almejam.

Sim, pois o poder é imaginário, não se iludam…
Mas o fato é que tanto os aprovados quanto os não aprovados tem motivos de sobra para se sentir injustiçados. Uma ducha de água fria acho que é expressão que perfeitamente representa o sentimento de todos.

No entanto, para todos os 215 candidatos eu digo: o que é de vocês está reservado.

Para os 70 aprovados, tenho certeza que o bom senso prevalecerá e a decisão liminar cairá. Caso contrario, todos os concursos terminarão da mesma forma, judicializados no CNJ…

Para o 145 que tombaram nesta fase final, tenho certeza que sua aprovação virá. Tenho amigos entre vocês. Sim, amigos. Sei que irão ser aprovados em futuro próximo em outro concurso. Boa parte de vocês foram meus alunos e eu sei do que estou falando.

Por fim, uma lembrança: ninguém gosta de tapetão. Fale-se o que quiser do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, mas aqui só existem duas formas legítimas de se tornar juiz, por concurso público ou pelo quinto constitucional. Tapetão não é opção.

Autor: guimadeira

Sou um cara de fé que acredita em sonhos. Fã incondicional de Shakespeare, Paulo Coelho e de Gabriel Garcia Marques, também adoro Neil Gaiman e Steven Spielberg. Ah, também tenho vários livros publicados, sou mestre e doutor em processo penal pela USP e Juiz de Direito. Corredor amador.

17 comentários em “Sobre duchas de água fria e expectativas frustradas”

  1. Como sempre meu amigo mestre vc é uma pessoa iluminada…simples e defensor da verdade…Parabéns pelo comentario…abraços!!!

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  2. Isso chama-se alvo, e você erra muitas vezes antes de acertar.Perseverança não é uma qualidade dos que querem ser primeiros em tudo.

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  3. Endosso os sensatos comentários do colega Guilherme Madeira de Lei, quer dizer, Dezem. Temos que ir nos acostumando aos “novos tempos” de questionamentos absurdos de comentários de pessoas que não conhecem o TJ Bandeirante e falam porque são tagarelas de plantão.

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  4. É por aí mesmo, professor. Quem é candidato a juiz do TJSP tem que se tocar que seus direitos mais básicos estarão temporariamente cassados. Direito de petição, legalidade, estado de direito afinal? Qual nada. Isso é tapetão! Maldita essa gente que insiste em reinvindicar seus direitos. Onde vamos parar?

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    1. Lamento que não consiga discutir o assunto de maneira madura. Quando conseguir volte aqui para o dialogo. Vc se surpreendera em perceber que a troca de idéias, ainda que antagônicas, quando madura é sempre boa

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  5. Mas segundo relatos, se alguém dissesse que estudava em cursinhos como Damásio, que estudava por sinopses suas, Madeira, o candidato seria inapto por falta de conhecimento jurídico!
    Cuidado, se formos seguir as determinações do TJSP, vc mesmo irá perder um bom dinheiro na sua atividade “docente”.

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    1. Caro,
      Nao ouvi nenhum relato desse. E nao entendi o docente entre aspas. Alias, se estivesse preocupado com dinheiro jogaria para a galera

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  6. Sem querer entrar no mérito desse debate, afinal, qual é o perfil que as bancas procuram num candidato à juiz?. Considero de suma importancia a resposta para essa indagação, pois servirá para todos aqueles que “acham” que podem ser juízes a requestionarem sua “vocação”, antes de enfrentar um concurso tão árduo e dispendioso, para que, depois, ao verem o resultado público da analise que nunca fizeram de si mesmos, não venham a fazer celeuma sobre o que nem eles mesmos sabem.

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    1. Elaine,

      Eu, particularmente, concordo com sua crítica nesse ponto. Minha opiniao pessoal é pela desnecessidade ou inutilidade da entrevista pessoal. Acho que este aspecto deve ficar nas mãos das psicólogas e assistentes sociais do Tribunal.
      No entanto, vc pode notar que é praxe este tipo de complemento em quase todas as provas da magistratura e do MP. Sem contar que a resolucao 75 do CNJ permite.
      Como eu lhe disse, minha entrevista pessoal foi muito tranqüila dadas as perguntas feitas. Tenho amigos aprovados e outros nao que tiveram perguntas no mesmo naipe.
      Ah, o segundo colocado do meu concurso, meu amigo pessoal, teve uma entrevista pessoal super demorada.
      Vai entender…

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      1. Olha Madeira, eu entendo que a entrevista pessoal é parte integrante do exame oral, oportunida em que o examinador, caso ainda tenha alguma dúvida sobre o perfil do candidato, poderá saná-la. Talvez venha daí o fato de alguns candidatos como o Sr., terem sido arguidos sobre coisas sem importancia (só cumpriram o rito porque o candidato já estava aprovado ou reprovado), e outros serem mais sabatinados (ainda estavam com dúvidas).
        Delegar isso aos psicólogos, por mais que sejam competentes, acredito que haveria falhas na avaliação, pois eles não exercem no dia a dia a atividade jurisdicional.
        Se assim fosse, certamente os reprovados do 183 estariam agora alegando isso numa representação administrativa no CNJ. É o eterno exercício do “ius esperniandi”, pode apostar…rs.
        O problema é sabermos qual é o perfil exato que a banca busca para o cargo de juiz para avaliarmos nossa vocação antes de ingressarmos nessa empreitada. Isso nos pouparia tempo e muitos banhos de água fria, de vaporeto ainda, que é pra arder na consciencia!

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      2. Ah sim…
        Entendo que isto demandaria mudanca inclusive na própria resolucao 75. Minhas observações sao de lege ferenda

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  7. Professor, concordo com o que o senhor disse no sentido de que muitas pessoas reclamam acerca da existência de “privilégios” concedidos em fase oral ou em entrevista sem terem prova cabal da existência desse suposto “clientelismo”…

    Mas o fato é que, na minha opinião, entrevistas “às escondidas” são de utilidade questionável e só servem pra gerar suspeitas e questionamentos…

    Na minha humilde opinião, concursos públicos (assim como as licitações públicas) deveriam primar pelo MÁXIMO de objetividade e transparência possíveis. Acho até que o CNJ/CNMP deveriam padronizar os concursos de ingresso no MP e Magistratura (isso, na prática, facilitaria muita coisa na vida de concursandos, professores e até das bancas). Se é pra fazer entrevista, por que não entrevista padronizada, como fazem vários setores de RH de empresas? Afinal, estamos tratando de um certame com milhares de inscritos, os quais, ao final, ocuparão um cargo remunerado com dinheiro público.

    Essa é a minha humilde opinião (só pra deixar claro: não participei deste concurso para a magistratura de SP)…

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  8. Eu também não participei do concurso, mas gostaria de deixar minha opinião. Até onde sei, peticionar no CNJ não é demérito, é antes, de acordo com o saudoso Professor José Adércio Leite, decorrência do exercício de direito fundamental. Se a liminar foi concedida, talvez as críticas não devem ser direcionadas ao candidato, mas ao CNJ. O candidato exerceu um direito que lhe é seu. O CNJ entendeu ser legítimo. A falta de publicidade em uma “entrevista pessoal” é algo tão violento que dispensa comentários. Sem contar os diversos pontos.
    Como o Sr. mesmo disse :

    “Como eu lhe disse, minha entrevista pessoal foi muito tranqüila dadas as perguntas feitas. Tenho amigos aprovados e outros nao que tiveram perguntas no mesmo naipe.
    Ah, o segundo colocado do meu concurso, meu amigo pessoal, teve uma entrevista pessoal super demorada.”

    Isso, para mim, só demonstra a falta de critério e a completa razão do CNJ. A resposta não

    “Vai entender…” Como o senhor disse.
    Em concurso, TUDO deve ser inteligível. É por isso que o CNJ andou muito bem em oportunizar um importante passo para IR entender.

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    1. Saliente-se ainda que o CNJ confirmou a liminar até o momento. Por outro lado, o STF indeferiu a liminar no MS do TJSP. Parece que os ventos vão a favor daqueles “inescrupulosos” que utilizaram de do seu maldito “direito de petição”.

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