Algumas reflexões sobre o Caso Robinho

Nos últimos dias veio a tona novamente o chamado “Caso Robinho” por conta de sua contratação pelo Santos. Gostaria de chamar a atenção para alguns pontos e ouvi-los sobre eles.

Em primeiro lugar de se destacar que, dadas as reações de muitos, é de se perceber como a cultura machista e a chamada cultura do estupro está impregnada em nossa sociedade. Cabe a nós homens escutarmos atentamente o que cada mulher tem a dizer sobre isso e aprender com elas. Não tenho lugar de fala sobre isso e não quero me alongar de forma que sugiro que o leitor converse com suas amigas mais chegadas ou irmãs ou primas e perguntem sobre o assédio que cotidianamente sofrem. Como eu disse, precisamos ouvir.

O ponto que me chama a atenção é de como este caso (aliado ao caso do Andre do Rap) estão sendo utilizados para mostrar suposta incongruência daqueles que defendemos a observância do devido processo legal e ao mesmo tempo temos restrições à contratação do jogador pelo Santos. Com isso pretendem buscar a saída pelo recrudescimento penal brasileiro de um caso ocorrido na Itália…

Quero então tecer algumas ponderações.

O jogador tem e deve ter todos os direitos que a legislação italiana e europeia convencional lhe garantam. Pretender que o jogador não tenha o direito ao devido processo legal para a formação da culpa é renunciar aos avanços civilizatórios reclamados desde Beccaria.

Isso não significa contudo que se pode, por força das garantias processuais penais, querer manietar os movimentos legítimos da sociedade de pressão ao Santos para que não contrate o jogador.

As relações privadas do time de futebol passam por diversos interesses e um deles é o interesse comercial de seus patrocinadores. Por se tratarem de relações privadas é justo e legítimo que as mulheres e todos os que lhes são solidários pressionem o time de futebol.

É absolutamente legítimo e humano que cada pessoa sinta uma gama variada de sentimentos ruins pelo crime de que é acusado Robinho. É absolutamente legítimo que se pressione o time de futebol a não contratar com ele. É absolutamente legítimo que se clame pelo devido processo legal.

Estas duas posições não são antagônicas e excludentes. As redes sociais forçam ao raciocínio simplista e pouco sofisticado. Elas planificam as peculiaridades e não nos permitem compreender a complexidade da vida.

Que Robinho continue a ter o devido processo legal e que a sociedade caminhe cada vez mais deixando clara sua mensagem: estupradores, não passarão!

Autor: guimadeira

Sou um cara de fé que acredita em sonhos. Fã incondicional de Shakespeare, Paulo Coelho e de Gabriel Garcia Marques, também adoro Neil Gaiman e Steven Spielberg. Ah, também tenho vários livros publicados, sou mestre e doutor em processo penal pela USP e Juiz de Direito. Corredor amador.

8 comentários em “Algumas reflexões sobre o Caso Robinho”

  1. Vivemos um tempo em que a reprovação social se torna gigantesca. A justiça tem seu tempo, mas a sociedade, ligada nas redes sociais, trata de impor suas reprimendas rapidamente. Isso nem sempre é tão bom.

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  2. Embora não compartilhe a visão de mundo do autor. Concordo com o texto, não me parece existir nenhuma divergência nas sensatas ponderações. Acrescentaria ainda que se o Santos resolvesse não suspender o contrato, igualmente deveríamos respeitar o posicionamento do clube.

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  3. Postagem pertinente. Sou feminista e garantista, além de compartilhar vários entendimentos sobre criminologia cultural e crítica. Em síntese: todo mundo tem direito ao devido processo legal. Infelizmente, com a misoginia que persiste na sociedade e no judiciário por consequência, ocorrem muitas vezes revitimização de mulheres por violência de gênero. E ultimamente parece que tem surgido mais casos de violência de gênero no meio do futebol: goleiro Bruno, Neymar, e agora esse do Santos. Como futebol é esporte muito popular, e jogadores famosos são ricos e influentes, há uma tendência de serem protegidos infelizmente. Nesse caso mais recente, o que deixou muita gente furiosa foi a divulgação de parte das provas que fundamentou sentença, além da manifestação do imbecil reclamando do movimento feminista. Enfim, não tenho pena do cara, pois ele não é um desinformado ou sem condições. Sabia as consequências do que falou. Não o chamo de estuprador porque entendo que não me cabe afirmar isso. Enfim, obrigada professor por recomendar que homens ouçam mulheres sobre essa questão. Abraços

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  4. A pressão para fins de não contratação do jogador é legítima, ligada ao comércio existente no futebol, relação clube e torcida. Podendo persistir até mesmo caso venha ocorrer reforma da decisão no sentido de absolver Robinho, com fundamento em questões estritamente de direito e não fática.
    Indo na mesma linha do inicialmente abordado pelo Professor e assim alongando o tema não principal do artigo, mas vou tomar a liberdade de expor: Vejo pouca profundida do tema quando veiculado na grande mídia, o que acaba por influenciar os discursos nas redes sociais.
    Eu, como homem, estaria sendo mentiroso, cego, hipócrita, ao afirmar jamais ter presenciado ação de constrangimento para prática de ato libidinoso. Me vem lembranças do colégio em que era normal ver meninos buscado ver as roupas íntimas das meninas ou “passar a mão” em suas partes íntimas, isso já nas séries iniciais.
    Para mim é impossível falar do caso Robinho sem fazer a ligação com a cultura machista não abordada pelos meios de comunicação. Logo tenho a sensação do “debate raso” abrir brecha para discursos hipócritas que acaba por afetar a área do direito.
    Na linha de raciocínio da colega “Luise Mior”, ultimamente acredito ter sido dado maior notoriedade aos casos, pois há uma evolução como sociedade que encoraja às mulheres a expor, bem como há um interesse da mídia em razão de audiência, mas a existência deve ser desde bem antes, pois sempre foi feita essa ligação entre o sucesso de jogadores de futebol com as mulheres.
    Por fim, fazendo uma adaptação de uma fala do Romário: Robinho calado é um poeta!
    Peço desculpas caso o comentário não tenha sido pertinente ao tema.
    Forte abraço!

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