O que aprender com mais um crime ambiental?

Mais um crime ambiental no Brasil. O crime de Mariana não foi suficiente para que mudássemos. Tivemos que suportar agora mais este crime. Enquanto escrevo este texto os números não estão fechados. No entanto, em termos de mortes humanas, corremos o risco de ter o maior crime ambiental da história do Brasil.

E o que devemos aprender e fazer? Posts no instagram e textos são bonitos, mas de nada valem se não aprendermos as lições.

Precisamos aprender que o meio ambiente importa. Que não é coisa de comunista (como bem disse o presidente FHC). Meio ambiente é justamente aquilo que, se faltar, não haverá para quem reclamar. Não haverá ação judicial, hashtag na internet ou o que quer que seja. A Terra é uma só.

O meio ambiente importa e ele não é coisa de comunista.

Quer saber mais o que acho que devemos aprender?

O Direito do Trabalho importa.

Com a reforma trabalhista, houve tabelamento do dano moral. Está lá no artigo 223-G, parágrafo 1 da CLT: o tabelamento do dano moral. Sem querer discutir se é inconstitucional ou não, quero que pensem.

Pensem no trabalhador da Vale que morreu e que ganhe 2 mil reais por mês. Agora explique para a família que eles receberão de danos morais no máximo 100 mil reais. Este foi o valor da vida do pai deles.

Agora imagine que seja o seu pai.

Muitos apoiaram a reforma trabalhista porque se veem no  lugar do patrão. No entanto, a alteridade deve estar com o empregado. Eu sou empregado, não sou patrão. Não sou dono de cursinho, sou empregado.

Eu sei de que lado estou e não me deixo enganar.

O mundo assombrado pelos demônios

Em sua obra O mundo assombrado pelos demônios, Carl Sagan faz uma profissão de fé sobre o pensamento científico.

Nos dias atuais tenho visto com muita preocupação pessoas levantarem tochas e foices contra a ciência, como camponeses querendo queimar Frankenstein.  A revolta do cidadão contra a ciência é algo que me assusta. Foi a ciência que nos trouxe até aqui e, no entanto, vejo movimentos de várias ordens querer negar a ciência.

Vejo movimentos defendendo que o planeta Terra é plano e não redondo. Vejo gente negando a teoria da evolução de Darwin. Vejo gente afirmando que o homem não chegou na Lua, que vacinas não existem.

E porque chegamos a este estado de coisas? Não há uma causa única, mas parcela da responsabilidade deve ser imputada aos professores. Nós não estamos conseguindo passar os valores básicos para os alunos. Não estamos conseguindo mostrar a importância de séculos do pensamento humano.

Aí vem a pergunta básica, como mudar então?

Precisamos, nós professores, sermos melhores do que fomos até hoje. Cabe também e em especial a nós carregar a chama do conhecimento e evitar que o mundo seja assombrado pelos demônios, como diria Carl Sagan.

2 Fase da OAB – Penal -Algumas observações

Ontem, dia 20.01, tivemos a aplicação da prova da segunda fase da OAB.

A peça prática foi contrarrazões. Em tese peça relativamente simples e no entanto, dado o elevado número de teses eu temo que alguns alunos percam pontos caso não tenham visto todas as teses.

É difícil avaliar quanto será atribuído a cada tese, no entanto é algo que precisamos ficar atentos quando vier a correção. Eu temo que, pelo número de teses, os corretores possam errar no momento da correção.

Quanto às questões, foram de nível elevado. Considerando os últimos exames da OAB, creio que foi um dos mais exigentes em termos de questões.

Agora é hora de descansar e, sei que é difícil, mas vou pedir mesmo assim: descanse por duas semanas e depois volte a estudar. Tenha você ido bem ou mal, não importa. Volte a estudar pois o estudo não é perdido.

Caso possa usar a repescagem, volte a estudar para a segunda fase. Caso não, volte a estudar para a primeira fase. O estudo jamais é perdido e você esta se preparando para o pior cenário, embora torcendo para o melhor cenário.

 

Foro privilegiado e o caso Flávio Bolsonaro

A menos que você tenha chegado de marte agora, certamente acompanhou o caso Flávio Bolsonaro e a decisão do Min. Fux. Antes de continuar a leitura peço que você pare, respire e pense: sou capaz de ler este texto sem agir como um militonto? Se a resposta for sim, continue. Caso contrário, procure sua turma rs.

Parcela expressiva do problema jurídico vem por força da QO na AP 937. Ali o STF assentou que nos casos envolvendo senadores e deputados federais a competência será do STF desde que cumpridos dois requisitos cumulativos: a) crime praticado no decorrer do mandato e b) crime cometido em razão dele.

No caso há uma divergência fática entre o senador e o MP. O senador diz que a quebra teria abrangido período após a diplomação, o MP nega.

Seja qual for a verdade, o fato é que cabe ao próprio STF fazer esta avaliação. Então, o senador nada mais fez do que exercer seu direito em requerer que o STF suspenda as investigações até se definir quem é o competente para avaliar seu caso.

O relator do caso, Min. Marco Aurélio, de posse das provas irá avaliar a quem cabe esta competência.

O caso também tem aspectos morais interessantes, notadamente por vir de quem veio o pedido. No entanto, eu me abstenho de comentar os aspectos morais.

Não seja radical, deixe-me mata-lo

Uma das técnicas mais básicas, simples e eficazes da negociação consiste em etiquetar o outro de radical. Você tem clareza do que quer mas para chegar a seu objetivo inicia com um pedido irreal. Como o outro lado evidentemente dirá não você vai costurando o acordo até chegar a seu objetivo.

Já vi muito isso em processo, a pessoa pede 50 para, em acordo, parecer razoável e aceitar 10. Quando a outra parte não aceita pagar os 10 o proponente tenta fazer o outro parecer radical.

Eu tenho verdadeira ojeriza a este tipo de técnica. Parece muito com aquele sujeito que diz: escuta, deixa eu te matar? Não seja radical, vai, deixa eu te matar? Olha, vamos fazer o seguinte, eu fico apenas com seu braço ok? Aí fica em um meio termo razoável.

Esticar a régua para fazer o outro parecer radical é um truque utilizado com frequência também no mundo político.

Quando o governante de plantão deseja algo, o que ele faz? Estica a régua ao máximo e quem se opõe ao meio termo por ele proposto depois é taxado de radical. Não se engane amigo, quando você concorda com o político neste meio termo, você corre o risco de concordar em dar seu braço a ele.

Ponderações sobre a flexibilização da posse de armas

Há várias pessoas discutindo sobre o novo decreto presidencial que flexibiliza a posse de armas de fogo em casa. Gostaria de abordar dois aspectos que até o momento não vi ninguém abordar.

Li dois argumentos: a) ninguém é obrigado a ter armas de fogo, logo quem não quer ter basta não comprar e b) o aumento nos crimes praticados no país prova que o desarmamento falhou.

Quanto ao primeiro argumento há uma falsa simetria com outros temas como é o caso do casamento gay. Dizem assim: “você não é obrigado a se casar com pessoa do mesmo sexo, logo respeite os demais”.

Como eu disse trata-se de falsa simetria. Quando alguém se casa com outra pessoa do mesmo sexo, isso nem de longe pode me afetar. Diz unicamente com estas duas pessoas.

Quando alguém tem armas em casa isso pode sim me afetar. Com esta arma em casa, inúmeras outras pessoas podem ser afetadas, seja pelo mau uso dela seja até mesmo pelo seu furto e uso pelo bandido futuramente contra mim.

Quanto ao  segundo argumento ele parte de premissa de que é responsabilidade do indivíduo a segurança pública. Não é!

A responsabilidade pela segurança pública é do Estado e não do indivíduo. Dizer que o aumento da criminalidade é a prova de que o estatuto do desarmamento falhou parte da premissa de que cabe ao indivíduo se armar e combater o crime.

Na verdade o aumento da criminalidade prova que todas nossas políticas contra o crime não tem dado muito certo e precisamos repensar nossa estratégia.

Leitura Diária – Processo Penal

LIVRO VI

DISPOSIÇÕES GERAIS

Art. 809.  A estatística judiciária criminal, a cargo do Instituto de Identificação e Estatística ou repartições congêneres, terá por base o boletim individual, que é parte integrante dos processos e versará sobre:

I – os crimes e as contravenções praticados durante o trimestre, com especificação da natureza de cada um, meios utilizados e circunstâncias de tempo e lugar;

II – as armas proibidas que tenham sido apreendidas;

III – o número de delinquentes, mencionadas as infrações que praticaram, sua nacionalidade, sexo, idade, filiação, estado civil, prole, residência, meios de vida e condições econômicas, grau de instrução, religião, e condições de saúde física e psíquica;

IV – o número dos casos de co-delinquência;

V – a reincidência e os antecedentes judiciários;

VI – as sentenças condenatórias ou absolutórias, bem como as de pronúncia ou de impronúncia;

VII – a natureza das penas impostas;

VIII – a natureza das medidas de segurança aplicadas;

IX – a suspensão condicional da execução da pena, quando concedida;

X – as concessões ou denegações de habeas corpus.

§ 1º  Os dados acima enumerados constituem o mínimo exigível, podendo ser acrescidos de outros elementos úteis ao serviço da estatística criminal.

§ 2º  Esses dados serão lançados semestralmente em mapa e remetidos ao Serviço de Estatística Demográfica Moral e Política do Ministério da Justiça.  (Redação dada pela Lei nº 9.061, de 14.6.1995)

§ 3º  O boletim individual a que se refere este artigo é dividido em três partes destacáveis, conforme modelo anexo a este Código, e será adotado nos Estados, no Distrito Federal e nos Territórios. A primeira parte ficará arquivada no cartório policial; a segunda será remetida ao Instituto de Identificação e Estatística, ou repartição congênere; e a terceira acompanhará o processo, e, depois de passar em julgado a sentença definitiva, lançados os dados finais, será enviada ao referido Instituto ou repartição congênere.

Art. 810.  Este Código entrará em vigor no dia 1º de janeiro de 1942.

Art. 811.  Revogam-se as disposições em contrário.