Contardo Calligaris é o cara

Segue abaixo texto de autoria de Contardo Calligaris, que escreve todas as quintas no jornal Folha de São Paulo. O Contardo é um dos poucos motivos a justificar minha assinatura da folha.

   Madeira

CONTARDO CALLIGARIS
Amores e mudanças


Como esbarrar num amor que nos transforme? O filme "Tinha que Ser Você" dá uma dica preciosa


QUANDO A VIDA da gente está emperrada (o que não é raro), será que faz sentido esperar que um encontro, um amor, uma paixão se encarreguem de nos dar um novo rumo? Provavelmente, sim -no mínimo, é o que esperamos: afinal, o poder transformador do encontro amoroso faz o charme de muitos filmes e romances.
Os especialistas validam nossa esperança. Jacques Lacan, o psicanalista francês, dizia, por exemplo, que o amor é o sinal de uma "mudança de discurso", ou seja, na linguagem dele, de uma mudança substancial na nossa relação com o mundo, com os outros e com nós mesmos. Claro, resta a pergunta: o que significa "sinal" nesse caso?
Duas possibilidades: o amor surge quando está na hora de a gente se transformar ou, então, é por amor que a gente se transforma. Não é necessário tomar partido: talvez as duas sejam verdadeiras.
Seja como for, volta e meia, alguém me pede uma receita: como esbarrar num amor que nos transforme? A resposta trivial diz que os encontros acontecem a cada esquina: difícil é enxergá-los e deixar que eles nos transformem, ou seja, difícil é ter a coragem de vivê-los. Aqui vai um exemplo.
O filme "Tinha que Ser Você", escrito e dirigido por Joel Hopkins, além de ser uma pequena dádiva, oferece uma "dica" preciosa sobre as condições que fazem que um amor "engate". É a história de um encontro ao qual os protagonistas tentam dar uma chance -a chance de transformar suas vidas.
Parêntese. Harvey (Dustin Hoffman) está na casa dos sessenta, e Kate (Emma Thompson) na dos cinquenta. É possível ver no filme uma parábola em prol da ideia de que nunca é tarde demais para deixar que um amor nos dê um novo rumo.
O título original, "Last Chance Harvey" (última chance Harvey), iria nessa direção: é agora ou nunca. Pode ser, mas talvez toda chance que a vida nos dá seja mesmo a nossa última.
Fora isso, o filme começa nos mostrando que a vida de Harvey é tão emperrada quanto a de Kate. Em ambos, há uma certa decepção por não conseguir (ou não ter conseguido) aventurar-se a viver seus sonhos -ser pianista de jazz para Harvey, e romancista para Kate. Os dois estão sozinhos e conformados com uma certa mediocridade afetiva: Kate se encaminha para ser a filha que cuidará para sempre da velha mãe, e Harvey já desistiu de ser o pai da filha de quem ele se distanciou, muitos anos antes, no divórcio que o separou da mãe dela.
Em suma, Harvey e Kate estão precisando de uma mudança.
Por que o encontro de Harvey e Kate teria mais sucesso do que os encontros às escuras que Kate se permite, de vez em quando? Por que eles não balbuciariam apenas a estupidez inibida que é habitual nesses casos? Simples, mas crucial: a conversa deles começa com uma sinceridade quase cínica. A "cantada" inicial de Harvey é o oposto do fazer de conta que é a regra das relações sociais, pois Harvey se apresenta confessando o fracasso de sua vida.
Logo, Harvey e Kate passeiam por Londres discorrendo e se conhecendo. Os espectadores descobrirão se eles saberão dar uma chance ao encontro ou, então, voltarão cada um para seu "conforto".
O passeio pela cidade evoca dois filmes de Richard Linklater, que estão entre meus preferidos, "Antes do Amanhecer", de 1995, e "Antes do Pôr-do-sol", de 2004.
No primeiro, Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) encontram-se, passam um dia nas ruas de Viena e, enfim, separam-se. No segundo, eles se encontram de novo, em Paris, nove anos depois, e, também passeando, imaginam, de alguma forma, a outra vida que poderia ter sido a deles se, no fim daquele dia em Viena, eles tivessem apostado no futuro de seu encontro.
Aqui, uma recomendação prosaica que emana dos três filmes: se você procura um grande encontro amoroso, sempre use calçados confortáveis, porque nunca se sabe por quantos quilômetros se estenderão suas deambulações amorosas.
Brincadeira à parte, os filmes de Linklater talvez sejam mais tocantes -entre outras coisas, porque eles conferem uma beleza melancólica a uma desistência que é muito parecida com as renúncias às quais nos resignamos a cada dia. Mas o filme de Hopkins, "Tinha que Ser Você", é mais generoso, porque ele nos deixa com uma sugestão: o diálogo que leva ao amor, que dá a cada um a vontade de se arriscar, não surge da sedução e do charme, mas da coragem de nos apresentarmos por nossas falhas, feridas e perdas.

House – Último episódio – Sem spoiler

Quinta feira passará o último episódio de House no Universal Channel, às 23:00.

Já vi este último episódio e verei novamente (assim como comprarei o box, assim que sair).

Não é exagero dizer que este final de temporada está no nível da temporada anterior.

Absolutamente fantástico.

Este episódio mostra qual o limite da mente humana. Qual o limite entre a razão e a emoção.

Como muitos talvez saibam, sou um sujeito totalmente passional nas coisas que faço. Daí porque me sentir atraído pelo personagem do House, que é justamente meu oposto – racional, contido, amargo.

É claro que já tive minhas cotas de infelicidade na vida, todos as temos. Mas elas apenas serviram para redobrar minha fé na vida e nas pessoas.

É comum após um tombo, termos receio de entrar de cabeça nas coisas com medo de nos machucarmos. Mas, digo a você, este é o único jeito de viver a vida: entrando de cabeça. Sempre se pode quebrar a cara, mas este é o único jeito de viver uma grande paixão.

E o House talvez comece a entender isso neste episódio…

Por isso gosto muito daquele dito adolescente:  viva, pule, grite e dance como se ninguém estivesse olhando – a vida é bela demais para ficarmos amargos.

Mulheres

Estou em uma fase em que tenho ouvidos apenas para mulheres. E como há mulheres boas ultimamente. Kate Nash e Ida Maria estão entre minhas favoritas, embora não sejam tão famosas aqui no Brasil. A primeira é uma irlandesa gatinha que tem um sotaque muito sexy. Sem contar que as melodias são fantásticas. Já a segunda é uma norueguesa, não tão gatinha, mas também como voz e sotaque sexys. Trata-se de música pop descompromissada e despretensiosa, como a boa música deve ser: pura diversão. Aqui em baixo você encontra dois links para o youtube com estas duas fantásticas mulheres (aqui os links para os sites de ambas Ida Maria e Kate Nash):

 

 

David Carradine

Notícias dão conta de que foi encontrado morto o ator David Karradine em um quarto de hotel em Bangkok, na Tailândia, o ator David Carradine.

Para quem não lembra dele, trata-se do ator que interpretou o personagem Bill, no filme Kill Bill. Também é o ator que interpretou Kwai Chang Kaine na série Kung Fu, que era passada na Bandeirantes ao meio dia ou uma hora na década de 80.

Carradine e seus personagens deixam órfãos uma legião de fãs, nerds em sua quase totalidade, como este escriba.

Ainda escreverei um post sobre a série e sobre o filme, mas saiba, desde já, que considero o filme um dos melhores filmes de todos os tempos e fica aqui a dica cultural para você.

Sobre o politicamente correto e o nazismo

Todos sabem que não sou adepto do politicamente correto, embora respeite a posição de quem acha que é moderno o ser.

Mas, há exageros que não podem ser tolerados.

Ontem, no jornal do meio dia da Globo dois jornalistas questionavam a compra da obra de Will Eisner para ser incluída na biblioteca de escolas públicas em São Paulo. Trata-se da obra Um contrato com Deus.

Para quem não conhece, trata-se da primeira graphic novel da história.

Esta obra foi uma forma de Eisner exorcizar o demônio da morte da filha por leucemia.

E porque a obra foi questionada? Porque conteria cenas de violência em que homens batem em mulheres, prostituição e uso de drogas.

Ora, com todo o respeito, chegou-se a um limite que, caso ultrapassado, irá desembocar em queima de livros em praça pública, assim como os nazistas faziam.

Vejam, poderíamos também questionar a seguinte obra cujo resumo segue: o tio mata o irmão para virar rei e comer a mulher do irmão. O filho do rei morto começa a ver o fatasma do pai que exige vingança e mata o tio. Para quem ainda não sacou, estou tratando de Hamlet, de Shakespeare.

Ou poderíamos também questionar a inclusão da obra em que um sujeito é torturado por desafiar o poder do estado e, traído por um amigo, é assassinado em praça pública (estou falando da Bíblia e de Jesus).

Não dá para admitir este tipo de postura de jornalistas que ainda tentam se justificar dizendo que apenas querem proceder ao debate.

Sei que é difícil arrumar uma boa pauta para reportagens mas, com o devido respeito, certos debates quando iniciados podem terminar onde não se sabe. Não vai faltar quem defenda que deve haver  uma escolha democrática nos livros a serem adquiridos e aí cada grupo poderia vetar determinados autores: a) eu veto Charles Darwin porque o homem não veio do macaco; b) eu veto Shakespeare, pois é muito violento.

Pelo amor de Deus, não?!

Vamos deixar as pessoas pensarem por si. As pessoas não precisam ser tuteladas, muito menos por jornalistas. Eduquemos nossos filhos para decidirem, por si, o que é ou não bom.

Além disso, sempre me lembro de Miles Davis nesta hora, quando perguntado sobre o que as pessoas deveriam ouvir, tendo respondido: Ouçam de tudo, pois só assim vão entender porque eu sou um gênio.

Vejam as cenas abaixo e espero que não sejam uma profecia e sim um alerta.

Aos amigos mineiros – IV

Muitos têm me perguntado sobre a possibilidade da OAB MG aceitar as duas peças ante a omissão nos dados do problema.

Isto porque, como sabido, no problema fez-se menção expressa ao artigo 138 mas não à causa de aumento de pena.

Também já disse aos amigos minha posição pessoal de que não concordo com este tipo de pegadinha, que, ao meu ver, não é daquelas que permitem avaliar conhecimento.

Tenho para mim que é possível que a OABMG aceite as duas peças, ao menos no momento da correção.

Então, agora, somente resta a pior fase que é a fase da espera da lista.

Estamos juntos e torcendo por vocês.