Por uma vida menos ordinária

Amor de Pai

Dizem que somente quando nos tornamos pais é que entendemos os erros que nossos pais cometeram conosco e então podemos perdoar-lhes as falhas.

Acho que nisso reside muito da sabedoria da vida. Nossos pais erram conosco, erram muito. Assim como nós erraremos com nossos filhos.

E no final das contas, os erros não importam tanto.

O que importa é o amor que foi dado, o amor, isso é que fica.

O amor que faz um pai pegar um ônibus e andar 400 kilômetros para ver se o filho está bem com seus próprios olhos ou, como está no vídeo abaixo, o amor que faz um pai fazer a prova do iron man, só para seu filho ficar feliz.

Amor de pai, é isso: nossa falhas são redimidas pelo amor, de filho, de neto.

Feliz dia dos pais

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Nós podemos ser menos reacionários

Mendigos sendo proibidos de tomar sopa no centro, polícia matando acima do “comum”, políticas higienistas enfim praticadas sem o menor pudor: este é um retrato do que vemos no dia a dia em São Paulo e no Brasil.

Que os governantes brasileiros cometam atos estúpidos não é nenhuma grande novidade. A história recente do Brasil é pródiga em exemplos de atos reacionários e, porque não, xenófobos.

No entanto, o que tem causado profunda surpresa e, em algum grau, descrença é que este processo de “reacionarização” (o termo não existe, claro, mas é indicativo deste movimento) agora atinge também as pessoas especialmente quando se trata do tema da segurança pública.

Pensemos em nossa área, ou seja, operadores do direito.

Quantos de nós não temos uma postura de defesa dos direitos humanos quando se trata da análise de contratos, especialmente quando um dos lados é composto por planos de saúde, bancos ou seus equivalentes?

A aplicação da teoria da imprevisão, onerosidade excessiva ou qualquer outra similar soa absolutamente natural quando se trata da análise contratual nas relações privadas.

Agora mude-se o cenário: em vez de questões de natureza civil, imagine-se que tenhamos questões envolvendo o direito penal e o direito processual penal.

Neste momento todo e qualquer fundamento teórico abandona o indivíduo e entra em campo aquilo que brinco chamar-se de “Doutrina Datena” (sim, ele mesmo).

Como explicar este processo de incapacidade de percepção do outro?

Talvez aqui a resposta esteja na própria pergunta.

A noção de alteridade existe em ambos os casos mas voltada para pessoas distintas. Explico melhor.

Todos são capazes de se ver fazendo um contrato ruim ou em apertos financeiros por qualquer motivo. Daí é fácil imaginar-se ao lado do devedor e contra os bancos.

Por outro lado, quando se trata de segurança pública, a alteridade faz com que nos vejamos ao lado da vítima, jamais ao lado do que comete o crime.

Conseguimos nos ver como o motorista de carro que pega um congestionamento por causa dos mendigos tomando sopa, mas não nos vemos como os mendigos que necessitam da sopa.

Daí a impossibilidade de utilização de um marco teórico minimamente sólido e coerente pelos operadores do direito.

Que tal sermos um pouquinho, mas só um pouquinho menos reacionários? Para isso, precisamos compreender melhor o papel do outro na sociedade. E por outro, não apenas aquele com a face mais visível, mas também o sem voz.

PS – Este texto inaugura uma nova seção no Blog: “Por uma vida menos ordinária”, em que tratarei de temas não necessariamente jurídicos.

PS – A referência óbvia ao título da seção é a música abaixo

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23 comentários em “Por uma vida menos ordinária”

    1. Falando em sensibilidade, o mestre tem mesmo. Pena que isso não é frequente no meio jurídico.
      Uma vez, ainda na época de estudante, fui à audiência penal para estagiar. No momento em que o magistrado perguntava ao acusado não percebia que ele, por provir de um meio humilde demais, não entendia o significado de palavras que, para a maioria de nós, soam claras.
      Resultado: pela simplicidade extrema do pobre acusado foi condenado apesar da advertência do advogado para que o magistrado “descesse” o nível das palavras.
      É a vida…

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  1. Daí porque o respeito à vulnerabilidade humana tem que ser efetivamente exigido, sob pena de graves penas que deveriam atingir ao bolso de quem, podendo evitar o sofrimento humano, omite-se.

    Solidariedade MAIS do que um direito, deveria ser tratado como um mega dever cotratual Estatal e Social.

    Eu acho injusto quem pode e não ajuda a quem precisa. Pra mim é um crime.

    Liberdade?

    Ok, mas será que a liberdade de gozar deve ser considerada superior a integridade física, a dignidade ou a vida?

    Por que as lóqicas internas de mercado tem que interferir em cada ponto da vida humana?

    Por que o nosso coraçãozinho foi tão congelado ao longo da nossa vida, tão fria?

    Aprendemos o desumano desde cedo: nas escolas, em casa, na “Ingreja”, na TV…

    Passamos por cima dos outros porque de alguma maneira somos levados a isso, lucramos com isso. A nossa mentalidade é arruinadora do humano e tudo o que a ele se relaciona, porque somos predadores de nós mesmos…

    Mas tem pessoas que pensam e agem diferente. Elas tiveram uma orientação de vida contraposta a tudo o que existe. E é essa a lógica social que precisa ser implementada: nas escolas, na mídia, nas instituiçoes…

    Mas, por enquanto, se é o bolso o que há de mais vivo entre nós e valioso em nós, FODA-SE a ele na hora de garantir efetividade aos Direitos (e DEVERES) Humanos!

    Atenciosamente.

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  2. Olha eu preciso aproveitar a oportunidade de dizer que é um privilégio ser contemporânea de um juiz com a coragem, a sensibilidade e a justiça de Guilherme Madeira Dezem. Para os que não sabem, o excelentíssimo Madeira ordenou que se alterasse o atestado de óbito de um preso político morto pela ditadura militar. Agora, a memória do combatente está minimamente reconhecida´. Essa decisão é inédita, passível de recurso, mas enche meu coração de esperança e torna nossa vida menos ordinária. Madeira eu não sei se vc le esses comentários, mas parabéns, é um orgulho ter sido sua aluna.

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  3. Eu penso que, direitos e deveres, se intercalam no emaranhado da vida. Mas com relação aos mais humildes, parece-me, os direitos não subsistem! somem! Desaparecem!
    Ser humilde, parece defeito grave. Não são eleitos! Estão aquém de uma vida decente. Estão em desalento constante. Sem qualquer rumo, em uma nau desgovernada. Sem timão. Sem razão.
    É preciso rever posturas e conceitos. Para que a humanidade de cada um de nós, floresça e renasça, como a fênix em toda a sua grandeza e possibilidades.

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  4. Meu Deus que Juiz humilde!!! ele é doutor pela USP, magistrado, professor, e tem uma humildade que o faz brilhar mais ainda!!!

    Professor Madeira, não consigo assistir aos seus videos postados e sobre àquelas palavras que o sr. sempre diz nos final de suas aulas. Principalmente sobre os ensinamento exortados por sua mamãe: Guerra de Termópila, os espartanos, incrível.

    Deus abençoe muito o sr e a sua família.

    Vagner Oliva
    Pindamonhangaba – SP

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  5. Meu Deus que Juiz humilde!!! ele é doutor pela USP, magistrado, professor, e tem uma humildade que o faz brilhar mais ainda!!!

    Professor Madeira, não consigo assistir aos seus videos postados e sobre àquelas palavras que o sr. sempre diz nos final de suas aulas sem me emocionar. Principalmente sobre os ensinamento exortados por sua mamãe: Guerra de Termópila, os espartanos, incrível.

    Deus abençoe muito o sr e a sua família.

    Vagner Oliva
    Pindamonhangaba – SP

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  6. Depois de ler e degustar o Blog, fico cá imaginando, que privilégio, ter tido Dr. Guilherme como Juiz em minha pequena cidade – Guariba (SP). Parabéns. Forte Abraço

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  7. Eu gostaria muito que a sociedade se colocasse na pele do Policial Militar,que não pode ir para casa fardado,que não pode passear com o filho na rua nem com o cachorro, que não pode esticar a farda no varal,que não pode ter orgulho de dizer “sou policial militar”,pois, esta sendo cassado e recebe uma miséria.Gostaria que se colocassem na pele desses Batmans que não tem duas tomadas e a vida que eles tem não é a de video game, as balas são de verdade e não tem tempo para decidir mas tem prazo curtissimo,questão de segundos para decidir se ele vive ou morre ou arrisca ir para a cadeia!Gostaria que vissem prender o bandido que os atacou e vissem esse bandido cumprindo pena no presídio com status de herói do crime – o charada – e saindo livre pouco tempo depois,pronto para atacá-los.Acontece que estão muito preocupados com os direitos e esquecendo das obrigações.A obrigação de não atacar policial, a obrigação de cumprir a pena e responder pela fuga ou tentativa de fuga, a obrigação de trabalhar e contribuir para com o crescimento do Estado a obrigação de prender,julgar e legislar para o bem do Estado e Sociedade.Enquanto ficarmos fazendo discurso para respeitarmos os direitos,precisamos ter uma percepção do que são direitos e a quem fornece-los.Passamos por uma crise que há tempos vem sido alardeada por todos que labutam na segurança pública e o Governo vem repetindo que é balela desde 94.A soberba,vaidade,ganância,avareza e egoísmo são os males que não deixam quem pode e deve fazer o que tem que ser feito.E nós simples e reles mortais, só temos desde a década de 90 duas opções – que nos são empurradas goela abaixo pela lei e mídia – A e S – S e A – quando não é A nem S vem o L disfarçado de H ou D e nada muda e assim vai e quem fala isso é execrado.

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  8. Penso que o ser humano é extremamente preconceituoso, perigoso, assim como ama, mata; dissimulado porque sempre tem uma face oculta a apresentar; interesseiro, se o interesse me beneficiar, digo que sim; e incrédulo porque acredita em muitos ‘santos’ ou em nenhum, e só reza quando a água esta batendo no pescoço.
    Hoje se fala em homofobia, união estável de casais do mesmo sexo, aborto de anencéfalos, aborto, negro, pobre,empregado doméstico, e por ai vai, a lista seria extensa de tantos preconceitos que estão impregnados na nossa alma humana. Estas falas que ecoam nos quatro cantos, são muito incipientes, retóricas, de fachada, que a todo tempo buscam mostrar algo que não é verdadeiro, que não se sente, porque a sociedade ainda pensa e age como na idade média.
    Somos primitivos, violentos, preconceituosos e soberbos, a espécie humana evoluiu aparentemente, isso mesmo, o homem evolui muito pouco moralmente, espiritualmente. Na verdade apresentamos uma falsa evolução em relação ao que nos foi ensinado por Jesus; “amai-vos uns aos outros, assim com Eu vos amei”. Estamos longe de cumprir este mandamento tão singelo. Conseguimos com muito esforço a amar nos familiares e assim mesmo que se cuidem, porque a mortandade entre pais e filhos e vice-versa é assustadora. O filho que quer a herança. o seguro, etc, mata sem dó nem piedade, com requintes de crueldade dependendo do patrimônio familiar.
    Aparentemente aceitamos o problema quando não é conosco, então conseguimos ser liberais, modernos e compreensivos, imagine a cena ” a filha criada em berço de ouro, cutis clara apresentando o seu escolhido de tez negra ou a contrário a reciproca é verdadeira, isso vale para o amarelo, cafuzo, índio, pobre, homosexual. Esta é a minha percepção diante de tantas observações do comportamento humano, infelizmente é assim.

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